Lua sem nome
Dois planetas diferentes em cor, tamanho e peso, seguem suas órbitas silenciosas. Cada um com sua gravidade, cada um com o tempo próprio de rotação, cada um obedecendo à ordem invisível que os mantém em movimento. Nunca deveriam se encontrar. Mas, por algum capricho dos senhores do universo, se atraíram. Não se alinharam, mas se atraíram. E quando isso acontece, parece mesmo que o tudo se moveu para permitir aquele encontro breve como um eclipse sem hora marcada.
Dessa aproximação nasceu uma lua. Uma lua sem nome. Suspensa, não pertence a nenhum dos dois, mas existe para ambos. Não afeta as órbita dos planetas, não altera sua composição, não muda a trajetória do cosmos. Só toca uma coisa: as marés.
E é aí que mora o risco.
Essa lua sem nome mexe mais em um planeta do que no outro. Em um, provoca marés cheias demais, tsunamis inesperados, secas dolorosas. No outro, talvez quase nada. Nunca saberemos ao certo, porque luas suspensas não têm garantias. Como é que algo que não tem nem nome poderia oferecer certeza?
O que se pode sentir diante dela é sempre pouco ou demais. Pouco para a vontade, demais para a ordem natural. Ninguém ousa dar nome, porque dar nome é fundar permanência. E essa lua não é feita de permanência. É feita de suspensão.
E o mais triste é saber que luas suspensas não mudam de natureza. Nunca se tornam luas plenas, nunca unem órbitas. A ordem natural é desaparecer. Uma hora, sem aviso, ela se dissolve no escuro. Os planetas seguem. Mas quem recebeu demais da maré fica com oceanos esquisitos, chorando a ausência de algo que já nem existe mais, mas ainda assim dói como se existisse.
Porque querer o que está em suspenso é isso: viver de eclipses que não se repetem, de encontros que não têm moradia. É sentir a falta antes mesmo de perder.
E quando se vê, já não há.

No Comment