Falta de fé
Falar de relacionamento hoje em dia já é bem clichê. Todo mundo tem propriedade para falar sobre o assunto, todo mundo pensa nisso, o algoritmo não nos deixa escapar. Mas é inevitável observar: como é fácil começar, como é fácil trocar, como é fácil sempre achar que o próximo será melhor.
Não sou do tipo que gira em torno disso. Minha vida gira em torno do trabalho, do dinheiro que eu ganho (porque o único dinheiro que me impressiona é o meu) e das minhas amigas. E, mesmo assim, esse tema insiste em voltar. Talvez porque o amor romântico seja a poeira fina das mulheres da minha geração: por mais que a gente varra, ele sempre encontra uma fresta para se acumular. Culpo as princesas da Disney.
O que vejo é um vício no começo. As pessoas (eu inclusa) querem o frio na barriga, o arrepio breve, a novidade. Mas ninguém quer a parte que vem depois: alinhar, negociar, encarar defeitos, sustentar silêncio. Eu mesma fujo disso. Depois da terceira semana, quase sempre já estou com um pé na porta. Desde que me separei, foram pouquíssimas as vezes em que tive vontade real de ficar.
E não acho que seja só comigo. É uma epidemia. Estamos todos rodando como hamsters, dentro de uma tela brilhante. Deslizamos rede social como quem acredita que está tocando gente e conversamos com Chat GPT como se fosse conexão genuína. Mas no fundo, estamos com medo de se conectar de verdade. Medo de se entregar. Medo de descobrir que o outro não é melhor que nós mesmos.
É assustador como ficou fácil pra mim seguir em frente. Fácil demais. Fácil a ponto de me dar enjoo.
Será que vai ser sempre assim? Será que nunca vou me apaixonar de verdade? Será que a desconfiança virou meu estado natural?
Talvez seja herança. Nossas bisavós confiaram porque não tinham escolha, e sofreram com isso. Nós, para não repetir a história, escolhemos não confiar em nada. Mas ainda dói. Toda autopreservação tem gosto de solidão.
E é essa dor que me pega: a dor de não sentir alguém me amar no peito, de não me deixar levar pela magia de acreditar em alguém. Cada vez que deixo um quase amor para trás, sinto um pedacinho da minha fé morrer.
E, olhando direitinho, parece que já não sobrou muito.

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