Adulta na sala de espera
Na sala de espera eu já estava entediada, esperando alguém que, claro, estava muito atrasado. Foi aí que entrou uma garotinha de olhos bonitos que me lembrou alguém. Estava com a avó que escolheu uma cadeira mais distante, mas a menina me viu e decidiu que ia sentar do meu lado e puxou conversa como se fossemos melhores amigas. Perguntou meu nome, perguntou se eu estudava. Respondi que não, que já tinha estudado muito, e que agora só trabalhava. Os olhos dela brilharam:
“Eu não vejo a hora de ser adulta de trabalhar também!”
Emendou que queria ser veterinária, porque gosta dos bichinhos. Mas também queria ser dançarina, porque gosta muito de dançar. Ou seja: estava oficialmente decidido que ela seria uma veterinária dançarina.
Lembrei de quando meu pai queria que eu fosse freira. Eu, prática desde cedo, perguntei se freira podia dançar. Ele disse que não. E eu respondi: “Então não quero mais ser freira”. Simples assim.
Quando criança, eu também fiz minhas listas: queria ser dentista, queria ser desenhista, queria ser escritora (meu Deus, como eu sonhei em ser escritora!). Mas de todas essas coisas, nenhuma é o que me paga os boletos hoje. O que me dá dinheiro é algo que eu nem gosto tanto de fazer, mas faço bem. As coisas que eu amo ficaram relegadas ao hobby. A vida adulta é isso: fazer bem aquilo que não necessariamente gosta, porque o capitalismo tem dessas.
E então estava eu ali, morrendo de cólica, rezando para o tempo passar. Mas a menina falava, falava, falava… E, por alguns minutos, a dor pareceu menor diante da grandeza dos planos dela.
Me dá uma pontada no coração pensar que, um dia, ela também vai ser adulta. Vai descobrir que de todas as muitas coisas que a gente faz, quase nenhuma é aquilo que a gente realmente queria fazer. Muito improvável que ela consiga ser uma veterinária dançarina.
Mas, sinceramente, tomara que consiga. Porque eu, que sonhei ser uma escritora dançarina, virei apenas adulta.

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